Diário

#7 Postos para fora do trem em Portugal

Depois da nossa primeira experiência com workaway na Quinta da Pena (“quinta” é como os portugueses chamam “sítios” ou “fazendas”) e de termos passado um mês na Quinta do Muro ajudando nossa Família Portuguesa, era hora de partir para nossa segunda experiência, desta vez numa pequena cidade chamada Benafim, no meio da região do Algarve. Havíamos combinado com nosso próximo anfitrião que ficaríamos todo mês de outubro/2018 ajudando ele nas tarefas diárias (basicamente colheita de azeitonas, alfarrobas, figos e outros).

Para chegar até Benafim, podíamos escolher entre ir de autocarro (ônibus) ou comboio (trem), sendo que, no caso dos comboios, havia a possibilidade de conseguirmos descontos de até 60% nas passagens, se comprássemos com antecedência de 5 dias ou mais.

Por volta de 15 dias antes do mês de outubro, verificamos que a Comboios Portugal (CP) tinha uma promoção no trajeto Guimarães -> Tunes (Tunes é a estação de trem mais próxima de Benafim). Com essa promoção, pouparíamos uma boa quantia, então nos pareceu a melhor opção. Verificamos as datas e horários e compramos um ticket que partiria de Guimarães no dia 30/09/2018 (um Domingo) e chegaria ao Porto, na estação Campanhã, à meia-noite do dia 01/10/2018, onde aguardaríamos uma conexão. O comboio de Porto até Tunes sairia às 05:40 do dia 01/10/2018 e chegaríamos a Tunes às 10:53 da manhã. Teríamos que aguardar 5 horas e 40 minutos na estação Porto – Campanhã, mas tudo bem: iríamos preparados com água, alguma coisa para comer, roupas, etc.

Aproximando-se a data da nossa viagem, recebemos um e-mail da CP avisando que, entre os dias 30/09 e 02/10, haveria uma greve e muitos comboios seriam suprimidos. Forneceram um endereço de internet no qual poderíamos consultar os comboios que não seriam suprimidos durante a greve. Não nos preocupamos muito, já que nosso bilhete estava garantido e nosso comboio Porto -> Tunes estava na lista dos que não seriam suprimidos. Também ligamos para a CP e confirmamos com o atendente que nosso comboio aconteceria. Tudo certo!

No dia 30/09, fomos até a estação de Guimarães e fomos informados por um guarda que não havia (e não haveria) nenhum comboio no dia. As “bilheteiras” também estavam fechadas, pois, além da greve, era Domingo. Como já contávamos com essa possibilidade, voltamos para casa e pedimos que nossa amiga-quase-irmã Ana Teresa nos levasse até Porto – Campanhã (em torno de 60km de viagem) no dia seguinte. Apesar do transtorno, ao menos a partir de lá – pensamos – nosso comboio estaria garantido.

Voltamos pra casa, jantamos e fomos dormir.

No dia seguinte (01/10), acordamos por volta das 4:00 da manhã, tomamos um “pequeno almoço” (“café da manhã”, para os portugueses) e rumamos para o Porto.

Chegando lá, verificamos que nosso comboio estava previsto para o horário estipulado, então era só esperar que ele chegasse, embarcar e curtir uma longa viagem até Tunes.

Quando o comboio chegou, pontualmente às 5:40, embarcamos e localizamos nossas poltronas. Notamos que infelizmente viajaríamos de costas, mas tudo bem: ao menos pudemos embarcar.

Alguns segundos depois de o comboio ter partido, uma senhora nos abordou dizendo que seu bilhete era para a poltrona onde estávamos sentados. Dissemos que também o nosso era para a mesma poltrona e sugerimos verificar com o fiscal de comboios. Ela fez isso e, momentos depois, o fiscal chegou para checar nossos tickets. Ao avaliar a situação, o fiscal voltou-se para nós e, de forma extremamente grosseira, disse:

– Seus tickets são para o comboio de ontem. Vocês descem na próxima estação!

Imediatamente tentamos argumentar que não havia erro da nossa parte, mas sim, talvez, do sistema, pois já havíamos adquirido o ticket havia semanas. Porém ele não aceitou qualquer tipo de justificativa e nos disse para ceder o lugar à senhora e irmos até o outra carruagem (vagão), onde fica uma espécie de sala dos fiscais.

Acompanhamos o fiscal, que foi taxativo em afirmar que nossos tickets eram inválidos, inclusive insinuando que estávamos tentando utilizar indevidamente um ticket já expirado. E que, sem choro, teríamos que descer na próxima estação. O fiscal nos mostrou, em seu equipamento, que os nossos assentos estavam reservados para a senhora e para outro senhor que embarcaria mais adiante.

Por mais que tentássemos argumentar, o fiscal parecia não nos ouvir. Tínhamos a nítida sensação de que falávamos com uma máquina.

Quando o comboio parou na próxima estação, ele nos obrigou a descer. Tivemos que dizer que tínhamos malas e que precisávamos ao menos retirá-las para levarmos elas conosco. Por pouco não deixamos até as malas no trem.

Pegamos as malas e, por todo o tempo que o comboio permaneceu parado na estação, ficamos tentando – em vão – argumentar. O fiscal era uma pedra. Só dizia, sempre de forma grosseira, “Seu ticket é inválido. Vocês não podem embarcar.”

A porta do comboio fechou e ele seguiu viagem. E lá estávamos nós, atônitos, num lugar desconhecido, numa estação chamada Vila Nova de Gaia, sem internet, sem possibilidade de chamar alguém (nossos telefones só tinham possibilidade de comunicação via internet, pois não tínhamos plano de operadoras locais).

Não sabíamos o que fazer.

Verifiquei que o próximo comboio para o mesmo destino passaria nesta estação após as 14:40, mas aí sim não teríamos um ticket válido para embarque.

Tentamos contato com a Ana Teresa, que nesse momento já estava a muitos quilômetros de distância, mas não conseguíamos sinal de WiFi.

As bilheteiras estavam todas fechadas em função da greve, então tentar trocar ou revalidar nossos tickets era impossível.

Tentamos contato com a Ana Teresa novamente, desta vez usando um telefone público. Chamou até cair a ligação.

Abordamos um fiscal de linha que estava num escritório e pedimos emprestado seu telemóvel. O senhor foi muito gentil e fez a ligação para a Ana Teresa, porém novamente chamou até cair e ninguém atendeu.

Algum tempo se passou e finalmente conseguimos um sinal precário de WiFi. Ligamos para Ana Teresa via WhatsApp e ela, completamente indignada (com a CP, claro), disse para esperarmos na estação que ela viria nos buscar. Nesta altura, ela já estava em Guimarães, ou seja, quase em casa. Ela fez a volta com o carro e viajou novamente até o Porto, na estação Vila Nova de Gaia, para nos buscar.

O clima de indignação e perplexidade com o ocorrido era total. Pensamos que aquele fiscal deveria ser uma pessoa muito infeliz para ter nos tratado de forma tão grosseira e não ter interesse algum em resolver o problema.

Ainda tentamos ir até uma estação maior, no Porto, para ver se conseguíamos trocar os bilhetes, mas, devido à greve, tudo estava fechado.

A solução foi retornar à casa da Ana, em Fafe, mais uma vez e aguardar a greve terminar para então decidir o que fazer.

Passou mais um dia. Nos sentimos muito mal, com a sensação de estar abusando da boa vontade de nossa “família Portuguesa”. Mas eles foram uns queridos, como sempre! Não é à toa que os chamamos de “família”.

No dia seguinte, colocamos todas as malas no carro da Ana Teresa e fomos até Guimarães (10km de Fafe) para tentar revalidar nossos bilhetes, explicando o ocorrido e na esperança de uma atitude mais coerente por parte da CP. Felizmente o Senhor Luis Silva, atendente da CP em Guimarães, foi muito cordial e trocou nossos bilhetes para o próximo comboio, que partiria em menos de 1h. Chegaríamos em Tunes no final do dia.

Com tudo pronto, esperamos essa 1h passar e embarcamos cheios de receios de novas experiências desagradáveis, mas dessa vez tudo correu bem. Chegamos em Tunes e conhecemos o Hans, sua companheira Sabine e sua amiga Gundi. Todos pessoas “altamente”, como dizem aqui quando querem se referir a algo que é muito bacana.

Estava tudo certo, mas ficamos muito indignados com tudo que havia acontecido e resolvemos fazer uma queixa à CP por todo esse transtorno, não só pelo que passamos, mas porque achamos que há um problema no sistema de vendas para passagens que têm conexões de um dia para o outro, como o nosso caso. Segundo uma análise que fizemos, o que aconteceu foi que o sistema “entendeu” que partiríamos às 10:00 do dia 30/09 e pegaríamos a conexão às 05:40 do próprio dia 30/09, o que – salvo se viajássemos no tempo – seria impossível. Desta forma, tínhamos dois tickets para o mesmo dia, como afirmou o fiscal grosseiro que nos expulsou. Fazendo a reclamação, esperávamos ao menos contribuir para que ninguém mais tivesse que passar por esse tipo de situação.

Para nossa surpresa, a CP nos respondeu lamentando imensamente o ocorrido e nos informando que, como forma de compensação pelos transtornos gerados, seríamos restituídos integralmente do valor das nossas passagens, o que de fato ocorreu.

Para nós, fica a lição de não se calar diante de injustiças, sejam elas com a gente ou com terceiros.

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